Piscicultura

Encontro de Piscicultores em Livramento reúne representantes de todos os elos da cadeia

Com foco em comercialização e agregação de valor, evento contou com produtores, representantes de instituições públicas, de associações, de empresas do setor e pesquisadores

Após uma série de atividades técnicas focadas em manejo, tecnologias de cultivo e sanidade animal, a edição 2019 do Encontro de Piscicultores em Nossa Senhora do Livramento reuniu um grande público em torno de dois pontos da maior importância para o desenvolvimento de qualquer cadeia produtiva, a comercialização e agregação de valor.

 

A evento anual é uma das ações do Projeto Sebrae de Piscicultura, iniciado em 2014 e que tem como parceiro a Aquamat (Associação Mato-grossense de Aquicultura) e apoio da prefeitura de Nossa Senhora do Livramento. O foco é o pequeno piscicultor  e são atendidas 55 pisciculturas e são analisados 352 viveiros e duas unidades de beneficiamento.

 

Ao abrir a atividade na manhã do dia 28/11, no Centro de Eventos do Município, a gestora do projeto do Sebrae, Valéria Pires, chamou atenção para o foco do evento e o porquê tratar dele nesse momento. “Precisamos estar atentos em como vender de forma correta, ter regularidade na produção e agregar valor ao produto para atender melhor ao mercado e alcançar uma boa rentabilidade”, resumiu.

 

O prefeito de Nossa Senhora do Livramento, Silmar de Souza Gonçalves, destaca a importância do evento para a cadeia da piscicultura, visto que o município tem um papel de destaque na produção de pescados. “Temos áreas muito boas, o clima é excelente para o desenvolvimento da piscicultura, mas nós precisamos de políticas públicas que favoreçam os pequenos e médios produtores para que possam ter sucesso na atividade”, disse, lembrando que existem alguns entraves como a regularização fundiária para que os pequenos tenham acesso a crédito. Segundo ele, Livramento tem condições de se tornar o município do peixe em Mato Grosso e destacou que o Sebrae tem feito um trabalho muito bacana junto a Aquamat e em parceira com a prefeitura local. “É de interesse nosso que o setor e desenvolva e melhore cada vez mais”.

 

Nossa Senhora do Livramento conta com 85 produtores de pescado, produzindo em 1.150 hectares de lâmina d’água com uma produção de 8.640 toneladas/ano (dados de 2018).

 

Não é a toa que o município é sede de um laboratório de pesquisa e produção de alevinos da Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural), que produziu em 2018, 406 milheiros de alevinos, comercializados, sobretudo, para os pequenos produtores a preços bem abaixo do de mercado - enquanto um milheiro de alevinos custa no mercado cerca de R$ 600,00, lá sai por R$ 220,00 a R$ 250,00, dependendo do tamanho. A expectativa para o próximo ano é fazer pelo menos um milhão de alevinos.

 

O presidente da instituição, Renaldo Loffi, lembra que a maioria das tecnologias de reprodução e de criação de peixe iniciou na região, que ele considera muito promissora por ter boas condições de água, clima, solo e produtores com aptidão para a atividade.

 

Além do valor mais acessível dos alevinos, os técnicos da Empaer dão todas as orientações de como fazer o manejo para que não haja perdas e seguem com o acompanhamento técnico nas propriedades.

 

Para o presidente da Aquamat (Associação dos Aquicultores do Estado de Mato Grosso), Igor César Davoglio, é de suma importância ter eventos que trazem novidades para todos os produtores, independente do tamanho, médios, pequenos, grandes, micros. “Quando a gente traz informações para o produtor, ele consegue criar o peixe dentro da técnica e isso resulta em rentabilidade maior para ele. As pessoas podem ver o que está acontecendo aqui e em outros estados da Federação”.

 

Segundo ele, Mato Grosso está vivendo um momento de transição. “O grande problema que nós vivemos hoje é a falta de segurança jurídica. Temos uma das melhores leis ambientais para a criação de peixes, o segundo maior recurso hídrico do Brasil – só perdemos para a Amazonas -,concentramos três biomas aquáticos – as bacias do Araguaia, Amazônica e do Paraguai que forma o Pantanal - então nós temos um potencial maravilhoso. Sem falar na maior produção de grãos para fomentar as rações, tudo é propício para a piscicultura, mas por causa da insegurança jurídica os grandes grupos não vêm para Mato Grosso, estão indo para Mato Grosso do Sul, Tocantins, São Paulo, Paraná, e nós estamos perdendo produtividade”.

 

No entanto, ele disse reforçou que se trata de uma transição. “A Aquamat vem trabalhando junto com a Sema, governo do Estado, Ministério Público, fazendo um ajuste de conduta, alterações para que a nossa lei possa seguir em frente e a gente passe a ter segurança jurídica, com isso, os investimentos voltam para o Estado e a gente vai explodir em produção”, acredita.

 

As questões foram abordadas nos dois primeiros painéis: “Olhar do poder público para a aquicultura”, do qual participaram Walter Valverde, secretário adjunto da Sedec (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico); a gerente de Desenvolvimento de Aquicultura e Pesca do Estado de Rondônia, Maria Mirtes; e Carlos Roberto Simas de Arruda, secretário adjunto de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural de Mato Groso; e “Piscicultura e organização da cadeia”, com o presidente da Aquamat; Alexandre Haveroth, da Cooperçu (Cooperativa de Produtores de Peixes do Rio Iguaçu), do Paraná; e Emerson Esteves da PEIXE SP (Associação de Piscicultores em Águas Paulistas e da União).

 

Ao apresentar os dados projeto de piscicultura, o agrônomo Eduardo Miranda, consultor do Sebrae MT, começou dizendo que em Nossa Senhora do Livramento não é mais a “terra a banana”, mas sim do peixe. E justificou a afirmação dizendo que o município responde por 1/3 da produção de peixes de Mato Grosso. Ele lembrou ainda a importância da união dos produtores para alavancar ainda mais  atividade.

 

Finalizando a programação matutina, Martinho Colpani Filho, da Colpani Pescados, de São Paulo; e Assis Castellan, da Global Peixe, também de SP, trataram de uma questão polêmica no setor, a presença do panga, que é uma realidade do cenário nacional, por sua facilidade de cultivo alta rentabilidade.

 

O assunto realmente gerou polêmica, especialmente porque há uma proibição de cultivo da espécie em Mato Grosso. No entanto, Valéria Pires disse que a intenção foi trazer um pouco que está acontecendo na piscicultura no país.

 

No período da tarde, foram apresentados os cases dos frigoríficos de vários estados, tais como Zaltana, de Rondônia, com Fabiano Moreira Figueiredo; Morada Nova Fischer, de Minas Gerais, com Ailton Mendes Batista; Copacol, do Paraná, com Nestor Braun. O empreendedor Yasser Caldeira, da Dona Fresca Pescados, a mais nova casa especializada em comercialização de Mato Grosso, falou sobre essa ponta da cadeia.

 

Expositores

 

Além das palestras e painéis, várias empresas apresentarem seus produtos e serviços numa pequena feira. Estavam lá VB Alimentos, Rastro Forte/Vet Sciences, Presence, Aquamat, Ração Social, Pap Rações, Dona Fresca Pescados, Peixes do Cerrado e Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

 

Peixes do Cerrado, que produz pescado em Nossa Senhora do Livramento, apresentou também o mais novo projeto do grupo, o frigorífico que está operando há 4 meses em Várzea Grande, com selo de inspeção municipal e capacidade para processar 5 toneladas por dia. Vinícius Cerqueira, um dos sócios da empresa, disse que a decisão de comprar o frigorífico foi para agregar valor ao pescado. Para ele, o encontro agrega conhecimento, promove a união da cadeia e fortalece a piscicultura de MT.

 

Com 10 funcionários, a unidade trabalha com beneficiamento e corte de tambaqui, pintado e jatuarana, com os cortes filé, banda, posta e ventrecha, além de peças inteiras evisceradas.

 

As professoras e pesquisadoras da UFMT, Janessa Sampaio de Abreu e Luciana Kimie Savay da Silva, que integram o Nepes (Núcleo de Estudos de Pescados) apresentaram, junto com um grupo de alunos, produtos desenvolvidos experimentalmente e que já estão prontos para serem produzidos comercialmente. Entre eles, filé defumado, salsicha e um hambúrguer feito com o espinhaço de tabatinga.

 

Segundo Luciana, são produtos que se fossem industrializados teriam consumo na certa, porque são de conveniência e saudabilidade. “São os chamados industrializados saudáveis, por isso temos certeza que poderiam atingir um público que hoje não consome peixe em casa por conta do tempo de preparo”, pondera, acrescentando que os produtos permitem um aproveitamento integral dos pescados e mais renda.