PESQUISA SEBRAE MT

Mais de 50% dos pequenos negócios não demitiram funcionários

Terceira edição do ‘Monitoramento sobre o Impacto do Coronavírus nos Negócios e na Economia’ aponta ainda que 97,1% das empresas respondentes continuam operando

Terceiro Monitoramento sobre o Impacto do Coronavírus nos Negócios e na Economia, feito pelo Núcleo de Inteligência de Mercado, da Gerência de Inteligência Estratégica do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Mato Grosso (Sebrae MT), aponta que 56,7% dos empresários ouvidos mantiveram o quadro de pessoal e que 55,4% não implantaram a suspensão temporária de trabalho de até 60 dias, permitida pelo governo federal durante a pandemia.

Foram ouvidos 379 empresários do universo de 33.443 Pequenos negócios (MEI, ME, EPP e Produtores Rurais) atendidos pelo Sebrae/MT de janeiro de 2017 a dezembro de 2019. O método utilizado foi de web Research, com taxa de confiança de 95%, erro padrão de 5%.

Como a pesquisa foi feita entre 10 e 20 de agosto de 2020,  muitas empresas já haviam retomado as atividades e 97,1% estavam funcionando normalmente. Apenas 2,9% encerraram as atividades definitivamente durante a pandemia devido à crise provocada por ela (45,45%), por dificuldades diversas (18,18%), adversidades agravadas pela crise (18,18%) e por outros motivos (18,18%). No entanto, quando questionados ser pretendem abrir novamente o antigo ou um novo negócios, 72,73% responderam positivamente e apenas 27,2% disseram que não.

Na análise de André Schelini, gerente de Inteligência Estratégica do Sebrae MT, o fato de 97,1% do universo das empresas permanecerem operando e com suas atividades ativas demonstra que as táticas e estratégias de sobrevivência de gestão estão sendo empreendidas, seja com auxílio de medidas governamentais ou mesmo com a ajuda de empresas de consultoria. “O estado de Mato Grosso tangencia a crise porque é um desvio padrão. Se nós considerarmos os dados econômicos, vemos que mesmo com a crise, a atividade do Estado, principalmente no que se refere ao consumo das famílias, se manteve em alta, com saldo positivo do emprego. Além disso, as pessoas que tiveram acesso ao auxílio emergencial conseguiram pagar suas contas, fazer o consumo e a economia girar, seja no seu bairro, na cidade, enfim, fizeram com que os estabelecimentos se mantivessem ativos”, constata.

Impactos da crise e expectativas

Sobre os impactos da crise decorrente da pandemia do novo coronavírus, 72,01% dos empresários responderam que foram impactados negativamente; 14,13% indicaram que não sofreram qualquer impacto; e 13,86% que foram impactados positivamente. Mesmo com a grande maioria tendo sido impactada negativamente, em certa medida, ele teve menos força do que efetivamente poderia. “Nós fechamos o segundo trimestre do PIB brasileiro e tivemos um tombo de 9.7%. Se não fosse Mato Grosso, seria muito pior. O apetite do mercado internacional pelo alimento, commodities, fez com que com que a atividade do agro permanecesse firme e exportando.”

Na avaliação do especialista, “a nossa saída da crise será mais rápida em relação a outros mercados”. Essa é a mesma visão de 50% dos empresários entrevistados na pesquisa que responderam estar confiantes na economia brasileira para os próximos seis meses e para outros 14,67% que se dizem muito confiantes. Já para 17,66%, a economia deve permanecer na mesma situação e 12,50% se mostraram pessimistas e 5,16% muito pessimistas.

Com relação à expectativa do desempenho das próprias empresas nos próximos seis meses, a maioria (53,26%) também respondeu estar confiante; 20,92% estão muito confiantes; 13,32% acreditam que a economia deve permanecer na mesma; 7,61% estão pessimistas e 4,89% muito pessimistas.

Na contramão da crise

Sobre o número de pessoas ocupadas, 31,28% das empresas ouvidas pela pesquisa reduziram o número de funcionários e 5,92% aumentaram o quadro.

É o caso da Caranda Propaganda, empresa de publicidade de Tiago Correa Ribeiro e Mariana Ribeiro, que contratou mais duas pessoas e expandiu o negócio em plena pandemia, tendo tido um crescimento de 20% no número de clientes e de 30% no faturamento. Não cortaram salários, mantiveram todos os benefícios e ainda ampliaram a oferta de capacitação com a criação da universidade corporativa.

Segundo Tiago, diretor de Novos Negócios da empresa, antes mesmo da pandemia, ele e a sócia iniciaram um movimento de reposicionamento de mercado. “Como nossa atividade é extremamente competitiva, percebemos que estávamos ameaçados e que o modelo tradicional não cabia mais. Ou a gente se reinventava ou íamos virar commodity, competindo apenas com preço”. Há dois anos começaram um processo de transformação da empresa e quando a pandemia chegou, de certa forma, já estavam preparados para a nova realidade.

A empresa agora discute negócios com os clientes e não foca mais somente em marketing digital. Apostaram em três nichos, agronegócio, construção civil e saúde, o único que não decolou durante a crise.

Ele conta que a pandemia acelerou um processo já em andamento e cita como exemplo o home office, iniciado em março, logo após o surgimento do primeiro caso de covid-19 em Cuiabá (no dia 19). A empresa segue com esse modelo até hoje, o que reduziu muito os custos – só com energia elétrica foram 75% de economia.

A empresária Deusa Melo Mendes e o marido Roberto de Campos, sócios da Cirúrgica MM Hospitalar, no mercado há 27 anos, viram o crescimento do fluxo de vendas da ordem de 59% entre março e agosto de 2020.

Muito tradicional no segmento, uma referência no setor em Cuiabá, empreendimento registrou um aumento muito grande na busca por produtos descartáveis como luvas, máscaras, protetores, aventais, e outros como álcool gel, álcool 70%, oxímetros, respiradores, umidificadores, inaladores e outros equipamentos relacionados a problemas respiratórios.

Com 15 funcionários, tiveram que fazer a reposição de duas vagas, que talvez não fossem preenchidas antes, relata Deusa, acrescentando que a pandemia os pegou no meio de uma obra de ampliação do empreendimento.

Cenário mato-grossense

Mato Grosso tem 324 mil empresas de pequeno porte. Dessas,  um universo de 233 mil pequenos negócios são dos segmentos mais vulneráveis à pandemia, aqueles que dependem de aglomeração e circulação de pessoas. Por exemplo, estabelecimentos do varejo tradicional, setor de construção civil, moda, alimentação, beleza, autopeças, mecânica, lojista, saúde, turismo, bares, hotéis, restaurantes, serviços educacionais.

São 134 mil MEIs, 87 micro empresas e 12 mil empresas de pequeno porte, sendo que desse universo 105 mil são do setor de comércio, 89.700 mil são do setor de serviço, 38.800 são da indústria e 51 do agronegócio, segundo dados da Receita Federal. Um universo extremamente representativo quando se  considera as atividades empresariais vulneráveis para os efeitos da pandemia.

Os pequenos negócios de MT geram 629.355 empregos, movimentando uma massa salarial superior a R$ 1.3 bilhão.

Em todo o Brasil, das 6,4 milhões de empresas existentes 99% são micro e pequenas empresas (MPE) e elas respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado (16,1 milhões de vagas).